quarta-feira, 30 de junho de 2010

De novo novamente


Além de experimentar a liberdade in natura, a alegria em estado bruto e a euforia para além dos músculos, todo ciclista desce as trilhas do tempo até chegar à floresta encantada da infância. Por isso, canta e dança em cima de sua bicicleta, fala bobagens desconexas, age por impulso e acha graça de tudo.

Ontem, quando Campinas ficou para trás, pedalávamos num grupo com cerca de 20 ciclistas. O ritmo médio tem a vantagem de alongar os quilômetros, diminuindo o tempo do passeio. Quem pedala na casa dos 28 km/h tem fôlego para conversar e rir bastante. Quem não consegue vai quietinho, controlando o batimento cardíaco, protegendo-se no vácuo da roda alheia.

Mergulhamos em direção a Coqueiros, passamos pelo Parque glamoroso desse bairro e alcançamos a ponte. Eu, o João e a Simara entramos juntos na ciclovia da Beiramar, a pista mais técnica do mundo. Nas proximidades do trapiche demos uma pequena parada para reagrupar. Então, pedalamos até a passarela do CIC, momento em que a lua começou a nos espiar por detrás dos montes. Tocamos direto pelo Córrego Grande até o pé do Morro da Lagoa para uma subida didática. O que o morro ensina? Ele reafirma a teoria de Darwin: mais fortes na ponta, lerdinhos no meio, mortinhos atrás.

A maldade que os mais fortes fazem com os mais fracos é formular perguntas que exigem respostas longas na subida dos morros: “Como você avalia o desempenho da seleção brasileira nas três últimas Copas?”; “Você consegue me dizer o nome das 43 praias de Floripa?”; “Afinal, o homem teve mesmo na lua?” A resposta vem num silêncio asmático, numa bronquite alérgica, num pianço profundo. Com os olhos esbugalhados pelo estertor, o moribundo deseja furar a jabulani, secar os mares e explodir o ônibus espacial! E deseja também que o interlocutor engula tantas vuvuzelas quanto for possível.


Chegamos ao mirante do Morro da Lagoa uivando, não pela lua, mas pelo esforço. Com morro e fome ninguém acostuma! Batemos algumas fotos e despencamos até o centrinho da Lagoa. Quem nunca despencou desse morro não sabe o que é o vento zumbindo na orelha, o pneu chiando alto, a adrenalina bombeando nas curvas fechadas, a velocidade aumentando, os olhos lacrimejando, Uhu!!! Uhuuuuu!!! “Legal bagarai!!!”, diria meu amigo Gean.

No centrinho da Lagoa nos hidratamos. Pediram Coca-Cola, entendi água. Pediram caviar, entenderam frango a passarinho e lá veio um cara com uma bandeja a nos oferecer iguarias bem na hora que estávamos vindo embora. Dizem que o Cássio chegou em casa, pegou o carro e voltou para receber a oferenda sozinho, mas acho que é invenção da galera.

Eu sempre achei mais fácil subir o Morro da Lagoa na volta do que na ida. Então subi numa boa. Mas eu ainda fico perplexo quando falta apenas uma curva para o topo e vejo o João, o Gustavo e o Rockfeller descerem novamente para resgatar os mortinhos. Os caras trabalham no Portal Turístico e no IML ao mesmo tempo!!!

Na descida de volta, um colega que esqueci o nome junto com João e Cássio aterrorizaram no morro! Os caveiras ultrapassaram um carro!! E o pior é que foram dois pela esquerda e um pela direita! Eu fui atrás do gol branco, no vácuo, torcendo para aquele meia roda não pisar no freio e estraçalhar meus dentes. E o João ainda foi tocando o terror num cara que despencou o morro de speed. O cara olhava pra trás e não entendia o que uma mountain bike estava fazendo colada em sua roda a quase 80 km/h!!! É que o Joãozinho é caveira, mané!!! E da próxima vez ele vai te atropelar!!!

Depois da descida, voltamos num ritmo bem confortável, com o filho da Cláudia chateado por ter perdido seus óculos no Mirante da Lagoa. Pô, era só pedir ao Cássio que ele subia lá e pegava o objeto. O cara é o rei da montanha! Reza a lenda que quando o Cássio era pequeno, a praia da Joaquina era a mais movimentada de Floripa. Então, quando ele tinha apenas três aninhos, seus pais tiravam sua Monark com aquelas duas rodinhas para equilibrar e ele zerava o percurso! E ia até a Joaquina com seu kichute, chupando pirulito e comendo paçoca.

É de novo novamente! Cássio zera o morro, João brinca com Lili, a ratazana mais limpinha da Beiramar, Petry sprinta nas retas, mestre Rinaldo agarra a lua (jabulani cósmica), Castilho prende a respiração e solta o sorriso, Rodrigo e Cláudia brincam com seus filhos, e “o mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência”...

Prof. Charles.

Nenhum comentário: